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Hora
da Saudade
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Antigamente
o principal instrumento de vôo eram os urubus. Bastava chegar
à rampa e procurá-los no ar. Se estivessem planando sem
bater asas, era sinal que as condições estavam boas para
voar. Felicidade era morar num país cheio de urubus, como o nosso.
Cheguei
a ter um adesivo no vidro do carro que dizia: EU AMO URUBUS.
Não
sei porque, o adesivo nunca fez muito sucesso com as mulheres, o que
era, aliás, a intenção principal por trás
da coisa. O máximo que eu conseguia delas eram olhares assustados
na minha direção além de pressa em se afastar o
mais rápido possível Descobri que mulheres não
gostam de urubus e menos ainda de indivíduos que gostam desses
bichos. As mulheres são mais chegadas em outras aves, como o
peru, por exemplo. Mas não é por esse motivo que eu iria
mudar o adesivo para EU AMO PERUS. Eu, hein? Qualé, tá
me estranhando Mané?!
O que me
fez tirar o adesivo do carro, porém, foi o episódio que
aconteceu um dia quando eu estava enchendo o tanque. (do carro) O atendente
do posto leu o adesivo, depois olhou para a asa na capota e, pensando
que se tratava de uma barraca de camping, perguntou:
"E
aí amizade, vai acampar no lixão?"
Hoje, os
urubus foram substituídos por uma parafernália de instrumentos
de alta tecnologia. Aparelhos cheios de teclas, botões e mini-telas
seqüenciais onde aparecem números, símbolos, gráficos
e luzinhas acompanhadas por apitos, alarmes e buzininhas de diversos
tipos.
Informam
praticamente tudo: altitude, planeio, velocidade da asa, do vento, temperatura,
umidade, previsão do tempo, cotações da bolsa,
horóscopo, período fértil da namorada, etc.
Procurar
urubus é coisa do passado.
Hoje os
pilotos voam concentrados nos aparelhos presos às barras e nem
precisam olhar para a frente. Basta obedecer aos comandos que recebem
em voz digitalizada dos instrumentos: "Diminua a velocidade...termal
a 10s rumo SE...enrosque à direita ...você tem e-mail...primeira
mensagem...Tonhão, aqui é a mamãe, na volta não
se esqueça de trazer ½ kg de gorgonzola prá macarronada
da Nonna, viu fôfo?, bom vôo, cuidado hein, voa baixinho,
tiau!"
Antigamente,
voar era mais simples e as asas eram leves. Você conseguia carregar
sozinho a asa sem correr o risco de entortar para sempre a sua coluna
vertebral ou desenvolver uma hérnia escrotal * do tamanho de
um melão (* no caso dos pilotos do sexo masculino.).
As asas
modernas exigem guindaste e uma equipe de quatro halterofilistas para
movimentá-las em terra.
Antes não
havia, também, tanta diferença entre as asas. Havia somente
dois tipos: pano simples e pano duplo. Os campeonatos reuniam as asas
de "Alta performance" assim chamadas as de pano duplo, não
importando o "bacalhau" que fossem. As diferenças eram
tiradas "no braço", como gostávamos de nos vangloriar.
Nos atuais campeonatos as diferenças continuam sendo resolvidas
"no braço". Só que, agora, é no chão
mesmo, na hora de discutir os resultados e a validade das provas.
Os campeonatos
se tornaram extremamente complicados. Antigamente, ganhava quem voava
mais longe, e fim de papo, Hoje, se o computador pifar, ninguém
fica sabendo o vencedor da prova, tal a complexidade das fórmulas
utilizadas. É preciso alimentar o computador com um programa
especialmente desenvolvido pela NASA onde são anotados: horários
de abertura da janela, fechamento da janela, abertura do portão,
preço da arroba do boi, número de pilotos inscritos, valor
do dólar comercial, número efetivo de decolagens isto
é, descontadas as arborizadas, distâncias dos pilões
e do gol, distância voada, latitude, longitude, cintura, peso,
CIC, RG, idade e filiação partidária, somente para
citar uma parte.
Para chegar
ao resultado final é preciso ainda multiplicar pelo "fator
de validade da prova" que é um número cabalístico
determinado pelo juiz do campeonato após consultar os búzios.
Existe ainda "o percentual de descartes" que é obtido
consultando-se o tarô. E aí, finalmente, chega-se a um
número o qual é dividido por raiz cúbica de pi
ao quadrado, a fim de impressionar a galera e justificar o cachê
da equipe de arbitragem.
Como conseqüência,
vira e mexe, as provas acabam sendo resolvidas "no tapetão",
ao sabor dos interesses de cada um. No atual sistema a maioria dos pilotos
tem um desempenho mais para Eurico Miranda do que para Romário.
Porém,
o que mais mudou nos últimos dez anos foi a atitude dos competidores.
Talvez seja apenas nostalgia, mas acho que a gente se divertia mais
nos campeonatos de antigamente. Não havia tanto profissionalismo.
As asas saíam direto da linha de produção para
os pilotos. Não eram especialmente preparadas para os pilotos
das fábricas como acontece agora. Dizem, por exemplo, que a asa
do Manfred Ruhmer tem um planeio de 16: 1, atinge 120km/h e só
faz curva à direita. Vem com os cabos de aço desencapados,
esticada como um tambor e com os sprogs* rebaixados (* espiroquetas
localizadas na ponta da pincineta da grampola, atrás do girosplic).
Só tem um problema, a asa dele é igual ao cavalo do Zorro:
só o dono controla, ninguém mais se atreve.
Por outro
lado, os "cintos" (*que os pilotos paulistas chamam de "indumentária",
os mineiros de "trem", os baianos de "abadá"e
os portugueses de "envelope aéreo") também evoluíram
bastante.Os pilotos hoje voam praticamente de cabeça para baixo,
pendurados igual salame de pizzaria. Dizem que nos modelos mais recentes
você se engata pelos calcanhares. Eliminou-se todas as saliências
e protuberâncias dos antigos modelos.
Embutiu-se
tudo: rádio, pára-quedas, camelback, lancheira, etc, e
foram-se os bolsos externos. Se antes, com todos aqueles bagulhos salientes,
os pilotos pareciam mulheres grávidas andando desajeitadamente
rumo a um piquenique, hoje os pilotos parecem bailarinos fantasiados
de cegonha. Usam umas manguinhas de lycra ("mangay"), tipo
sutiã, todo apertadinho, óculos cor-de- rosa, aerodinâmicos
e capacetes aerofolizados.
Ficam uma
gracinha, parecendo boiola enrustido, tipo Clovis Bornay a caminho do
baile de carnaval, fantasiado de "Libélula Imperial Esvoaçante".
Tenho saudades
do tempo em que voar de asa delta era coisa pra macho. Coisa pra quem
gosta de urubus.
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