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Calibrando
o Braço
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Há
muito tempo atrás conheci um piloto em São Vicente que
tinha três paixões na vida: fazer vôos duplos, paquerar
babás e “calibrar o braço”. Ele considerava
S. Vicente o melhor lugar do mundo para se fazer essas três coisas.
Todo fim de semana,
fizesse sol ou chuva, Guarabira aparecia no pouso em S. Vicente, pronto
para curtir as suas paixões. O pouso, ainda é o mesmo,
e fica situado na orla da praia entre o calçadão e as
barracas que vendem peixe frito.
Quando fazia sol,
Guarabira fazia a festa e curtia suas três paixões. Porém,
quando chovia, as babás desapareciam do calçadão,
e os fregueses do vôo duplo não davam as caras. Assim,
só restava a opção de “calibrar o braço”
à qual Guarabira se entregava de corpo e alma, com enorme profissionalismo
e dedicação.
As barracas de peixe
frito também continuam no mesmo lugar, vendendo o mesmo peixe,
a mesma cerveja gelada, a mesma cachaça.
Até hoje
os donos das barracas sentem saudades do melhor freguês que já
tiveram. Vira e mexe perguntam:
- “Que fim
levou o Bira?”
Alguns pilotos da
velha guarda dizem que ele casou com uma babá e parou de voar.
Sua fama, entretanto, é lendária. Todos lembram a técnica
de abordagem utilizada por ele: chegava junto do carrinho, observava
atentamente o nenê, depois virava-se para a babá e perguntava:
- “Nossa,
que criança linda! Quer vender?”
Segundo consta,
o gracejo funcionava sempre, e diversas babás foram vistas à
noite, calibrando com Bira. Algumas acabaram até mesmo experimentando
um vôo duplo, “cortesia da casa”.
Sua alegria contagiava
os passageiros que decolavam despreocupados, e pousavam rindo das palhaçadas
que Bira fazia durante o vôo.
Era excessivo em
tudo, inclusive na displicência e na generosidade. Quando não
havia fregueses era comum vê-lo voando com um garoto pobre que
vivia na rampa e era louco por asa delta. Bira não cobrava nada
e ainda deixava o garoto pilotar a asa. Os dois decolavam descalços.
Dizem as más
línguas que Bira precisava dar uma calibrada antes de abrir o
guichê do vôo-duplo e começar a trabalhar.
Dizem, também,
que sua habilidade no vôo variava de Nível 2 até
Master dependendo do Nível de Calibração.
Seja como for, nunca
aparentava estar calibrado pois o bom humor era sempre o mesmo.
O pessoal ainda
lembra da única vez que Bira errou um pouso e deu uma narigada
na praia. Ele levantou-se, sacudiu a areia, desengatou-se da asa e foi
direto para a barraca do peixe frito.
Foi a partir daí,
e graças a Bira, que o ato de “encher a cara” passou
a ser conhecido em S. Vicente como “calibrar o braço”.
Recentemente estive
por lá, num belo e ensolarado Domingo, disposto a matar as saudades
e “bater um lift” com a galera.
Enquanto montava
a asa perguntei a um piloto local se a condição não
estava perigosa, com tantas asas, paragliders e urubús disputando
o espaço aéreo.
- “Que nada,
brother. Todo mundo aqui tá com o braço bem calibrado!”
Devidamente esclarecido
pela resposta, decidi fazer o que qualquer piloto sensato e responsável
faria no meu lugar: fui para a barraca de peixe frito dar uma calibrada
preventiva.
É nas barracas
que você encontra a galera do vôo e fica sabendo das últimas
peripécias locais. O folclore Vicentino é dos mais ricos
e proliferam histórias que seriam de arrepiar, caso não
tivessem final cômico. Talvez devido ao consumo excessivo de peixe
frito, algumas histórias beiram o inacreditável.
Conta-se, por exemplo,
que um piloto de glider passou muito rente do topo de um edifício,
e o paraquedas enroscou nas antenas de televisão. O piloto ficou
pendurado, colado ao edifício, de pé sobre uma platibanda,
impossibilitado de se mover, enquanto aguardava ser socorrido.
Uma imensa multidão
de curiosos se formou embaixo, interrompendo o trânsito na avenida.
Aí, então,
ocorreu um grande mal entendido.
Alguém na
multidão perguntou o que estava acontecendo e ouviu a resposta
que se tratava de um desses “suicidas” que ficam voando
para lá e para cá.
Como o paraquedas
estava escondido da visão do público a versão “suicida”
se espalhou rapidamente entre a plebe. Foi o suficiente para a multidão
começar a gritar em coro: “PULA!! PULA!! PULA!!”
Quando os bombeiros
chegaram foram recebidos com uma vaia ensurdecedora. Em S. Vicente é
assim: ajoelhou tem que rezar. Suicida tem que se suicidar.
Conta-se também
de outro piloto que ficou enroscado na fachada do prédio e agarrou-se,
com unhas e dentes, à grade da varanda no 10º andar. Quando
conseguiu passar uma perna sobre o parapeito foi atacado a vassouradas
por uma velha maluca que acreditava estar sendo assaltada. Neste caso,
além dos bombeiros, a polícia foi chamada. A multidão
como de costume, cooperava e dava a maior força, gritando: “PEGA
LADRÃO!! PEGA LADRÃO!!”
E tem outra história
que asseguro ser verdadeira pois eu a presenciei há mais de uma
década atrás.
MAGRÃO costumava
testar suas asas novas em S. Vicente. Certa ocasião empolgou-se
com a performance de um modelo novo e resolveu impressionar a galera,
executando uma série de manobras arriscadas, ao entrar para pouso.
A coisa saiu totalmente
fora de controle. MAGRÃO quase atingiu um coqueiro, varou o pouso
no maior gás, passou raspando por cima do pipoqueiro no calçadão,
bateu nos galhos de um chapéu-de-sol, a asa girou e MAGRÃO
estatelou-se, de bunda, no asfalto, ocupando o espaço vago entre
dois carros estacionados.
Um motorista, que
naquele instante se preparava para dar ré e estacionar, saiu
nervoso do carro gritando:
- “NANANINA!!
Pode ir tirando esse negócio daí! Essa vaga é minha!”
Às vezes
fico na dúvida se é o público ou se são
os pilotos de S. Vicente que não batem muito bem da cabeça.
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