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Manobras
Vicentinas
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Voar em
São Vicente, num domingo de sol, exige dois requisitos básicos
do piloto: nervos de aço e um parafuso solto na cabeça.
Prá início
de conversa, o morro de onde se decola é baixo e fica escondido
atrás dos prédios. Se você não ganhar altura
ao decolar é aconselhável ir direto e reto para o pouso
na praia. Caso contrário, em vez de passar por CIMA, você
terá que passar ENTRE os prédios. Isso não é
problema para os pilotos locais, acostumados a executar a manobra “CARANGUEJO
LOUCO” que consiste basicamente em voar de lado, no espaço
de 3m que separa os edifícios.
Outro detalhe interessante
é que a extensão total do morro não chega a 300m.
Conseqüentemente, num domingo de sol, o espaço aéreo
local fica mais congestionado do que estação rodoviária
em véspera de carnaval. Nesses dias, a zona de sustentação
vira uma verdadeira zona de “assustação”.
No espaço aéreo, onde teoricamente caberiam apenas 6 gaivotas
voando espremidas, você enxerga umas 100 asas, 200 paragliders
e 400 urubús manobrando frenéticamente para não
colidirem no ar.
As gaivotas, que
não são bestas, nem suicidas, não voam aos domingos.
Dizem que as manobras mais radicais do vôo livre foram inventadas
e aperfeiçoadas pelos pilotos de S. Vicente, como uma necessidade
de sobrevivência.
Muitas vêzes
somente um semi-looping invertido seguido por um wingover em parafuso
consegue evitar uma colisão.
As manobras aéreas
tem título e autor aqui em S. Vicente. São conhecidas
por nomes sugestivos como: “saca rolha”, “KAMIKAZE”,
“kangurú perneta”, e “salva corno”.
Todas essas manobras
já salvaram vidas, especialmente dos espectadores embaixo. Sim,
porque os pilotos locais dizem - não sei se em tom de piada -
que se 2 colidirem no ar, cairão outros 10, igual “strike”
no boliche.
Uma recente pesquisa,
feita por um jornal local, revelou que o maior medo dos sãovicentinos
é o seguinte:
- ser ferroado por
um siri no mar 2 %
- ser assaltado
na praia. 5 %
- ser socorrido
pela polícia. 10 %
- cair uma asa delta
na cabeça. 83 %
Foi num desses domingos,
observando a “procissão aérea”, que cheguei
à conclusão que, Deus, além de ser brasileiro,
mora em S. Vicente e adora o vôo livre.
Mas, voar em S.
Vicente já foi mais tranqüilo. Em 1986 não havia
tanto stress: os paragliders ainda não tinham sido inventados
e a quantidade de urubús era bem menor (naquela época
não haviam as atuais leis de proteção ambiental,
e era permitido caçar e comer os urubús).
Para nós,
pilotos de montanha, voar em S. Vicente era uma experiência meio
monótona. Não nos entusiasmava muito ficar flutuando acima
de prédios, avenidas movimentadas, árvores e fios elétricos,
300m para lá, 300m para cá, até enjoar.
Isso, até
o dia em que descobrimos as alegrias do vento leste. Quando esse vento
entra forte, é possível ir voando, por cima dos prédios
da orla, até a Ilha Porchat, o que aumentava em incríveis
800m o nosso percurso aéreo.
Foi a partir daí
que a coisa começou a ficar interessante. Quem já voou
até a Ilha Porchat conhece o macete. Você vai “caranguejando”
lentamente, colado ao topo dos prédios.E aí, “sem
querer”, acaba assistindo cenas da vida alheia se desenrolando
nos andares mais altos dos edifícios. Você vê um
pouco de tudo: a peladona do 13º andar; crianças jogando
pingue-pongue no salão da cobertura; o careca do 14º “dando
um trato” na patroa; os adolescentes puxando fumo na caixa-d’água
e assim por diante. As reações do seu público são
as mais diversas: a peladona, muito sacana, finge que não te
viu; as crianças do pingue-pongue dão “tchauzinho”;
a mulher do careca grita assustada e o maridão corre para fechar
a cortina; os adolescentes te mandam “rosquinhas” na ida
e, na volta, estão te aguardando com cascas de melancia na mão,
prontos para o ataque.
Voar até
a Ilha Porchat era, portanto, uma aventura que sempre rendia “causos”
para contar ao final do vôo, na roda de cerveja que fazíamos
na barraca de peixe frito.
A aventura maior,
entretanto, acontecia quando o vento leste parava ou diminuía,
e você voando lá longe, sobre os prédios da Ilha
Porchat, xeretando a peladona. Quando isso acontecia aos domingos, era
encrenca na certa. De repente você se via numa roubada master,
perdendo altura, sem alternativa de pouso, a não ser a praia
lotada de gente e guarda-sóis abertos. Para complicar, você
chega por trás e ninguém te vê, porque todo mundo
fica olhando para o mar. E também não adianta gritar.
Aliás, gritar para o público sair da frente nunca é
uma boa idéia. O público sempre reage como um bando de
galinhas na estrada, correndo para todos os lados, menos na direção
certa.
Foi o que aconteceu
comigo num fatídico domingo, que me dá calafrios ao recordar.
Cheguei berrando feito uma vaca enfurecida, tentando abrir, no grito,
uma clareira no meio do povo. Para evitar um desastre de repercussões
jornalísticas, escolhi a única área , onde havia
menos do que 5 banhistas por metro quadrado, para tentar meu pouso de
emergência: decidi pousar dentro do mar, no rasinho. Infelizmente
não deu certo, pois a galinhada correu pra tudo quanto é
lado, e sobrou na minha frente uma baita duma gorda que gesticulava
e gritava ameaçadoramente, apontando na direção
da África: “VAI PRÁ LÁ!!! VAI PRÁ
LÁ!!!.
Desnorteado pela
súbita aparição de NAMÚ A BALEIA ASSASSINA
em plena reta final, fui obrigado a abortar o pouso, e executar uma
manobra radical.Mergulhei com a asa no mar, de bico e na vertical, como
uma gaivota faminta, ressalvando-se porém, que gaivotas, mesmo
famintas, não costumam mergulhar de cabeça em locais com
30 cm. de profundidade.Só lembro do enorme estrondo do impacto,
antes de ficar tudo escuro. Quando voltei a mim, demorou para entender
o que havia acorrido. Inicialmente achei que eu estava sonhando e que
estava numa linda praia, num lindo dia de sol, sob um lindo guarda sol.
Aos poucos fui descobrindo que a situação estava mais
para pesadelo do que para sonho. Meu capacete havia sumido no choque,
eu estava todo molhado, e, ainda engatado numa asa semi destruída,
sendo arrastado para a areia seca, por uma multidão pouco amistosa.
Milagrosamente não havia ossos quebrados em meu corpo, apesar
dos sismógrafos ao redor do planeta terem registrado 7.5 na escala
RICHTER,no instante da minha queda. Por um milagre também não
havia atingido ninguém.
O público,
porém, desapontado pela falta de óbitos e ausência
de sangue, não economizava elogios à minha progenitora,
me chamando de tudo quanto é nome: fedapê, irresponsável,
palhaço, babaca, animal e ...(horror dos horrores) corintiano!
Cheguei a pensar
que eles estavam me arrastando para a areia a fim de me lincharem mais
facilmente.
Aos poucos fui me
recompondo e a multidão ao meu redor se deslocou para ir apreciar
o salvamento de um banhista que felizmente estava se afogando ali por
perto.
Isso permitiu que
eu recolhesse os destroços e caminhasse 500m sob um sol escaldante
até a barraca do peixe frito onde contei para os amigos a manobra
que eu havia acabado de inventar: “GAIVOTA SUICIDA”.
Que eu saiba, até
hoje ninguém tentou repetí-la em S. Vicente. Essa manobra
não é para qualquer um : além de nervos de aço
é preciso ter VÁRIOS parafusos soltos na cabeça.
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