Piloto com Defeito

Por princípio, nunca deveríamos achar os acidentes engraçados. Mas às vezes é impossível conter o riso, principalmente quando a vítima não se machuca.

Daí o sucesso das vídeocacetadas, única coisa que presta no Domingão do Faustão, com exceção das peladonas que ficam rebolando diante das câmeras.

O acidente que aconteceu 10 anos atrás no Pico Agudo, merecia ter sido filmado e guardado para a posteridade.

Quem presenciou a cena, protagonizada por M. – folclórico piloto local – jamais esquecerá.

M. , cujo nome não será revelado a fim de preservar antiga amizade, sempre foi viciado em “ajustar a asa”. Normalmente passava mais tempo no chão mexendo na asa do que no ar desfrutando das alturas.

Segundo ele, sempre havia algo errado com a sua asa. A asa sempre tinha algum defeito que precisava ser corrigido. M. era um verdadeiro hipocondríaco quando se referia às “doenças” de sua asa.

-Essa asa está esquisita...era o seu comentário mais freqüente. E, tome ajuste! Todo vôo era precedido pelo ritual do ajuste e sucedido pelo ritual das reclamações.

Aprendi muito com M. Descobri defeitos que sequer desconfiava existirem, só de ouvir as reclamações daquele que era considerado por nós, uma verdadeira enciclopédia no assunto.

O interessante é que se a asa estava “puxando” para a esquerda, depois dos ajustes feitos por M. passava a puxar para a direita.

Se estava dura de comando passava a ficar “boba” nas respostas. Se estava “entrando em faca” nas curvas passava a “dar uns despenques” de vez em quando. Se estava lenta nas tiradas passava a dar uns “cabongues” no pouso.

E assim, M. se divertia “ajustando” interminavelmente a asa, num ritual que parecia não ter fim. Como resultado, era sempre um dos últimos a decolar.

Porém nesse dia, há dez anos atrás, M. resolveu decolar antes de todos nós, a fim de aproveitar as condições calmas e o vento liso do dia. Segundo ele, condições perfeitas para descobrir, a causa ou causas do defeito que o estava atormentando na ocasião.

-Hoje eu mato a charada! disse ele triunfante. Quero ser um mico de circo se hoje eu não descobrir o defeito desta asa!

E decidido, ergueu a asa nos ombros e se dirigiu para rampa, ovacionado por todos nós.

-Bom vôo Mico! Gritávamos nós. Te vejo no circo! E, no meio das brincadeiras ninguém notou que M. estava desengatado.

Aliás, nem deu tempo de se notar algo errado, já que M. chegou à rampa e simplesmente decolou, sem fazer o tradicional check-up pré vôo.

Foi uma surpresa para os turistas presentes, e um susto enorme para nós pilotos, quando vimos a asa sair voando e M. desaparecer de vista.

Naquela época a rampa era natural, de terra batida, terminando no mato baixo e arbustos, situados na beira do abismo.

Ao perceber que não estava engatado na asa, M. se atirou ao solo e literalmente se atracou com unhas e dentes a qualquer objeto sólido ao seu alcance.

Quando corremos até a rampa, M. já estava rastejando de volta para cima, todo sujo de terra, cuspindo mato e gritando palavrões.

-Aargh! Ptui! Ptui! Merda!

Foi aí que o mais incrível aconteceu.

O filho de M., que tinha uns 12 anos na época, totalmente alheio às dificuldades do pai, gritou deslumbrado, apontando pra frente:

-A asa pai! Olha a asa!

-Pô moleque, eu quase morro e v. ta aí preocupado com a asa!!!

Acontece que a asa permanecia em vôo, “batendo um bolão” no lift, pra lá e pra cá, ganhando altura.

Ninguém acreditava no que estava vendo.

Era uma situação verdadeiramente surrealista. Nós pilotos, atônitos sem saber o que fazer, e o público sem entender direito o que se passava, todos olhando para cima, mudos.

Aos poucos passamos a torcer pela asa e a gritar instruções:

-Alivia!!! Enrosca!!!

Durante alguns instantes até que deu certo, e a coisa funcionou. Depois, a asa ignorou nossas instruções, perdeu a termal, entrou na zona de rotores atrás do Pico, mergulhou feio, e, quando ia se chocar com o solo, recuperou o controle, e planou acompanhando o aclive do terreno para, finalmente, pousar com suavidade na beirada do estacionamento. Intacta, sem um arranhão sequer.

A ovação que a asa recebeu, após o pouso perfeito, jamais será esquecida.

Uma turista gorda virou para M. e disse:

-Que lindo moço, eu não sabia que a sua asa voava sozinha!

M. com os olhos faiscando virou-se para nós e rosnou entre os dentes:

-Alguém me segura, senão eu mato essa baleia!!!

E foi assim que M. finalmente descobriu qual era o problema da sua asa.

Era ele próprio.

Daí para frente passamos a chamá-lo de “Defeito”. Até hoje ele não gosta muito do apelido.