Campeonato sem Grana

Está ficando cada vez mais difícil organizar um Campeonato de Vôo Livre devido à falta de patrocinadores.

As asas e paragliders passaram a fazer parte da paisagem, viraram rotina e ninguém liga mais para a gente. Até os animais já se acostumaram conosco. Os urubus e gaviões nos insultam e “dão na nossa cara” sem respeitar a preferência nas termais. As vacas, que antigamente desembestavam só de ver a sombra das asas, hoje nem se movem mais no pasto. Vira e mexe tem piloto pousando em cima delas, criando a falsa impressão de estarem tentando praticar um ato obsceno com os animais.

Na verdade o vôo livre virou “carne de vaca” para o povão, que prefere ficar assistindo “Big Brother” na TV.

Vide, por exemplo, o que aconteceu no último Campeonato, na Pedra do Baú:o pouso ficava praticamente dentro da cidade (São Bento do Sapucaí) e nem assim o público apareceu, apesar de ser feriado. A multidão se resumiu a meia dúzia de adolescentes que se divertiam às pampas aplaudindo quando algum piloto errava o pouso e kabongava a asa.
Porém, nem tudo está perdido. De acordo com o Professor Pardal (P.P.), especialista em “ter idéias”,ainda é possível organizar um torneio de vôo livre sem dispor de grana.

Segundo ele, conseguir patrocínio depende apenas da capacidade de atrair multidões para o local de pouso. Para isso basta criar as expectativas certas no público.

P.P. é originário do Sul de Minas e conhece como ninguém a psicologia local.

E ele dá o mapa da mina:

-É preciso criar a expectativa de que haverá um espetáculo cheio das coisas que o povo adora: violência, safadeza, música brega, além de prêmios. Se você criar esta expectativa, virá gente até do Espírito Santo, e aí fica fácil conseguir 5000 reais do Prefeito, para a premiação dos pilotos.

Sim, porque os pilotos também só comparecerão se houver mordomias e premiação em dinheiro, além dos troféus. Todos eles, sem exceção, acham que é moleza ficar entre os 5 primeiros colocados, e garantir pelo menos a grana da gasolina.

Portanto, antes de pedir a grana para o Prefeito, você tem que criar com antecedência o clima certo na região. Isto é, um clima que garanta uma multidão ao redor do pouso, pois, para o Prefeito, multidão é poesia e rima com reeleição.

Continuo ouvindo atentamente aos ensinamentos de P.P.:

- Para criar o clima adequado você vai precisar dos seguintes itens: um sistema de som com 8000Watts de potência, 2 tijolos, 8 metros de corda com um pedaço de pau amarrado na ponta, uma bola de futebol, um braço humano e uma sósia da Tiazinha que não tenha medo de voar.

Serão necessários alguns fins de semana para pôr o plano em prática e deixar a multidão em “ponto de bala”.

No primeiro fim de semana reúna os seus amigos voadores e façam um vôo de reconhecimento sobre a cidade escolhida.

O resgate deverá ser instruído a ligar o sistema de som “no úrtimo” quando chegar ao pouso oficial da cidade. Isto deverá atrair alguns curiosos ao local, principalmente quando as telhas das casas começarem a se soltar e a cair com as vibrações sonoras. Escolha o último sucesso da dupla caipira “COMICHÃO E PICADURA”, atualmente em primeiro lugar no “hit parade” (pronuncia-se ritipareidi) sertanejo: “ACA BOU-SE TUDO” (pronuncia-se cabocetudo).

Ao pousar, você e os demais pilotos deverão comentar em voz alta, que a turbulência estava radical. Repita várias vezes:

-“Caraca meu! Tomei um tranco que quase arrancou o meu braço!!”

No 2º final de semana vocês repetem a operação, só que, desta vez, você não voa, nem aparece no pouso.

Um dos seus amigos deve passar voando sobre a praça principal e deixar cair o braço humano, de preferência no horário de saída da Missa do meio-dia.

Para maior autenticidade, coloque um relógio de pulso e lambuze o braço com bastante Ketchup (pronuncia-se quetechupe.)

No pouso, os pilotos devem aparentar preocupação com a sua ausência. Pelo rádio seus amigos devem avisar o pessoal na decolagem para não permitir que a “Tiazinha” decole em virtude da turbulência animal.

Peça, ainda, para eles acionarem o serviço de Busca e Salvamento da Aeronáutica para resgatar a sua asa que foi vista capotando na turbulência. Todos devem permanecer sérios, durante todo o tempo. Se a coisa for bem encenada, no 3º fim-de-semana vocês encontrarão milhares de curiosos se acotovelando no pouso, e nem será mais necessário ligar o som.

Neste fim de semana a “Tiazinha” faz um vôo duplo, de preferência vestindo apenas biquíni e botas de couro preto, além da máscara e do chicotinho, é claro ..Assim que pousar ela deve ser retirada do local, o mais rápido possível, antes que se crie um tumulto incontrolável.

No 4º fim-de-semana vocês notarão caravanas de ônibus lotados chegando ao local do pouso, além de barracas, vendedores ambulantes e um público ao redor de 8.000 pessoas, fazendo uma algazarra infernal enquanto aguarda os lances do próximo capítulo.

É chegada a hora de ir conversar com o Prefeito.

Nessa altura, vocês conseguem tudo aquilo que pedirem: troféus, dinheiro, hotel, massagistas, restaurante, ambulância, corpo de bombeiros, além de um pelotão de policiais e cordão de isolamento para garantir a integridade física da “Tiazinha”. Faça circular o boato que haverá o sorteio de um GOL OK e uma passagem aérea de ida e volta, para o RIO, entre os espectadores, no dia do Campeonato.

-Prontinho, brother, o seu Campeonato está no papo! É só correr para o abraço.

-Péra aí P.P., digo eu, a coisa assim parece fácil, mas eu tenho várias dúvidas. Primeiro: onde vamos arrumar um braço humano?

-É fácil. Qualquer quinto anista de medicina te arruma um. Eles são loucos por uma farra.

-E a “Tiazinha”, onde arrumamos uma sósia?

-Moleza. A namorada de um piloto amigo meu é uma morenaça que adora aparecer. Bota a máscara nela e ninguém nota a diferença.

-E os prêmios que serão sorteados, de onde virão?

-Bem, como você sabe, o povão adora pegadinhas. O GOL OK não é exatamente um carro zero quilômetro como você está imaginando. Trata-se dos dois tijolos que serão colocados a 7 metros de distância um do outro na área do pouso. A “Tiazinha” sorteará o felizardo que levará o GOL OK (pronuncia-se ó quei) isto é, um gol válido. É só chutar rasteiro no canto. Não tem erro.

-E a passagem área para o RIO, como é que funciona a pegadinha?

-É aí que entra a corda com o pedaço de pau. Você já viu balanço de beira de rio? Toda cidade do interior tem um. Pois então, a “Tiazinha” sorteia a passagem aérea para o felizardo, entrega a corda, aponta para o rio e pergunta:

-Tá vendo aquela árvore enorme no barranco do rio? Vai lá, amarra na ponta do galho e BOA VIAGEM.

E P.P. conclui:

-O público vai rachar o bico de dar risada.

-Não sei não, digo eu, preocupado. E se tudo der errado e a multidão partir enfurecida para cima de nós?

-Aí brother, só tem uma solução: libera o cordão de isolamento da “Tiazinha” e dá no pé!!! E, por precaução, evite voar no Sul de Minas nos próximos 10 anos.