Encarando os Belgas

Algum tempo atrás, participei do Campeonato Belga de asa delta, onde consegui o título de Vice-Campeão. Juro que é verdade.

Quando contei a notícia aos meus amigos voadores, só ouvi risinhos e piadinhas de mau gosto. São uns despeitados.

Os braços-duros e invejosos ficam tentando desmerecer o 2º lugar que arduamente obtive no Belgian Open. Ficam dizendo que a Bélgica não tem montanhas nem pilotos de asa delta.

Vamos deixar as coisas claras, para acabar de vez com as fofocas que estão circulando por aí:


1º) Tá cheio de pilotos de asa delta na Bélgica! No último censo, eles já somavam ao todo mais de quatorze, caso não tenha ocorrido mais nenhum óbito.


2º) É claro que existem montanhas na Bélgica! A principal fica perto da Holanda, com 125m acima do nível do mar, no horário da maré baixa.
O local é lindo de morrer, embora a rampa assuste à primeira vista, por ser na beirada do precipício, com o mar agitado lá embaixo batendo nos rochedos. Dá um tremendo frio na barriga. Os belgas, porém, já se acostumaram, e morrem de amores pelo local. Dezenas deles tem alçado aos céus a partir deste ponto.
O pouso já é um pouco menos tranqüilo: é preciso tomar cuidado com os fios de alta tensão que circundam o local. Mas fora isso, as cercas e o rotor das árvores, é excelente.
A área de pouso situa-se no pé do morro, ao lado do cemitério. Menciono isto apenas como curiosidade já que uma coisa nada tem a ver com outra. Mas voltemos às fofocas:


3º) Não é verdade que o primeiro colocado competiu de paraglider. O primeiro colocado pilotou uma QUERO QUERO envenenada para competições. Quem voou de paraglider foi o 3º colocado, mas foi desclassificado após reclamação do último colocado que, graças ao recurso, subiu para a 4ª posição.


4º) Não é verdade que o primeiro colocado é deficiente físico. O Sr. Franz Stumpf, está em excelentes condições de saúde para os seus 64 anos de idade. Tinha apenas um pouco de dificuldade com a bengala, na hora da decolagem, quando era auxiliado pelo seu fiel enfermeiro. Fora isso o homem é fera e voa uma barbaridade apesar das cinco pontes-safena implantadas o ano passado.


5º) Não vou negar que o Sr. Franz voou sem variômetro durante o Campeonato. Os médicos o proibiram de utilizar qualquer aparelho eletrônico que possa interferir com o seu marca-passo. O Sr. Franz, porém, utilizou relógio de pulso. Piloto experiente que é, sabe exatamente os horários das termais ao longo do percurso. As termais belgas são mundialmente famosas por sua pontualidade. Em tais condições o variômetro é totalmente dispensável.


6º) Não é verdade que eu comprei os troféus do Campeonato. Eu apenas emprestei a grana pois eles estavam com problemas de fluxo de caixa, segundo me disseram. O fato do troféu de vice-campeão ser maior e mais bonito que o de campeão deveu-se a um erro de comunicação quando os encomendei, após o término do Campeonato.


7º) O Sr. Franz (a "FERA BELGA" como é conhecido) é simplesmente imbatível, e talvez seja essa a explicação pela ausência de pilotos famosos como, Suchanek, Manfred, Nenê, Esqui, Zé "Prego" e outros no Campeonato Belga.

Por último quero esclarecer que poucos tiveram a coragem de enfrentar a "FERA" em seu território. Eu o fiz, e, só por isso, me sinto um vencedor.
Considero esse troféu o mais importante da minha carreira, com exceção, talvez, do título de Campeão do Torneio de Permanência realizado pela Prefeitura da Estância Turística e Ecológica de Cubatão, em 1984.
O troféu ocupa hoje lugar de destaque na minha coleção. Até tirei o pingüim de cima da geladeira para dar mais visibilidade.